domingo, 28 de agosto de 2011

De cara lavada - 177

Hoje me desfiz dos meus bens
vendi o sofá cujo tecido desenhei
e a mesa de jantar onde fizemos planos

o quadro que fica atrás do bar
rifei junto com algumas quinquilharias
da época em que nos juntamos

a tevê e o aparelho de som
foram adquiridos pela vizinha
testemunha do quanto erramos

a cama doei para um asilo
sem olhar pra trás e lembrar
do que ali inventamos

aquele cinzeiro de cobre
foi de brinde com os cristais
e as plantas que não regamos

coube tudo num caminhão de mudança
até a dor que não soubemos curar
mas que um dia vamos

Martha Medeiros

terça-feira, 24 de maio de 2011

Sem você aqui.

 


















Eu rasguei as nossas fotos
junto a todos nossos planos
Limpo aqui mais uma lágrima
carregada dos meus enganos

A madrinha dos meus filhos
aquela velha amiga de infância
eu te trago na lembrança
e que lá descanse em paz

Descobrimos o término do infinito
dói não ter você comigo
Em ti encontrava um abrigo
a amizade o nosso lar

Desde que você se foi
já não divido mais segredos
já não enfrento todos meus medos
deixo-os quietos, junto a mim.

Desde quando você se foi
esse sorrir não mais alegre
espera um dia que não se negue
a sua culpa do nosso fim.


Destruída a nossa casa
ando eu mais minha mágoa
que corrói e que afaga
os escombros da saudade.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Evolução

Já não choro mais a toa
nem fico triste a todo instante
creio ser isso impressionante
eu já não me torturar

Pelas maldades desse mundo
pelo sofrimento alheio
Seria o egoismo essencial
para nossos olhos tapar?

Estes ouvidos ensurdeceram
e esta boca já se calou
Não sinto dor e nem a vejo
nem um palmo abaixo do meu nariz.

Máscara bela que já colou
Esconde o mal que aqui passou
Eu sou a morte que não vingou,
aquele velho vaso ruim.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Momentos.

Cada lágrima
Cada poça abaixo de mim
feita com nossos momentos
repleta dos nossos bons momentos
Tão únicos.
Únicos tanto quanto és para mim
Tão seus, tão meus, só nossos
Nem o evaporar dessas águas irão apagar
Tudo que em meu peito habita
Querida,
meu bem em breve eu estou voltando
você me disse enquanto eu afogava os nossos sonhos
e planos, que agora eu atraso pra depois
por você e por mim, por nós, por nós dois.
Eu sei,
que a estrada é longa e a luta continua
que tudo é passageiro como nós ao pé da lua
Parados, fazendo um nada um tanto o quanto incrível
Difícil descrever o que parece indescritível
E quem sabe,
assistir o filme prometido
o desenrolar de uma história da
mocinha e do bandido
Que se foi,e a deixou assim sem direção
procurando a outra metade que partiu num avião
Mas retorne, vamos semear esse sentimento
não deixe morrer o que plantou aqui dentro.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Vinte e cinco centavos.

Traga-me flores, traga-me rosas
não vejo vida em meu jardim.
Eu vejo prédios, eu vejo mortos
que caminham e passam por mim

Mas não me vêem, há pouco tempo.
A poluição os fizeram cegar!
Ele caminha, e tão depressa
E o caminho ? - ele vai encontrar.

No oceano dela não enxerguei luz,
no azul dos olhos dela eu vi solidão
Para ajudar estendi a minha imunda mão
e recebi de volta vinte e cinco centavos.

Saia daqui, seu vagabundo!
Não vês que estás atrapalhando o mundo ?
Ficar parado ninguém mais pode
o importante é o seguir, parar jamais.

Pra onde vai, com quem vai
nada os interessa agora
Que sigam em paz, a todo vapor
marchando máquina, marchando.

Por aqui estive, aqui ficarei.
A rua é pública e disso eu sei.
Parado eu fico, até tomar minha decisão
A vida também proíbe andar na contra-mão.

No meu pisar faço meu caminho
e devagar vou para não esquecer
Quem rápido anda e sem destino
a morte leva por padecer.

Tic tac, tic tac
nada disso lhe satisfaz
vai soldado, sempre armado
com seu sorriso tão fugaz!

domingo, 2 de janeiro de 2011

Anjo Libertinado.

Te ver dormir é como uma lágrima
que consegui a menos sua
Ai quem me dera recolher a poça
que você fez ao pé da lua

Na minha rua não há tristeza
nem saudade e solidão
Na minha rua há tanta beleza
existe água e o sabão

Que limpam, dissolvem, acabam
com cada molécula de imundice do nosso mundo
Aprenda uma vez e faça isso por um segundo
e descobrirá que viver não é tão complicado assim

Ouço tua respiração agora, tão lenta
e calma sonora! Mal parece o menino assustado
que recolhi por padecer de suas lástimas

É quando eu descubro que vale a pena.
Vale a pena cada sorriso, cada suspirar
por mais falsos ou fantasiosos que possam ser

Todos os meus ataques-cardías.
Eu trocaria todos meus amanhãs
pra reviver esse único dia

Até quem sabe lhe tirar a agonia
que lhe sufoca e tanto ampara
Comigo o sol nasce no seu amanhã
contigo sou tudo, seu anjo da guarda.

Meio atrapalhado,de fato
mal sabe a paz que teu sorrir exala.
Fazendo tudo o que o diabo gosta
poupando assim, palavras.

Me embala, me amarra e me droga
quero ter uma overdose de você
Te guardo e preencho o vazio
que por vezes lhe trouxe à minha porta.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Raios de resistência

Hoje estou na estrada
embora desarmada, mantendo a minha guarda
valorizando cada lágrima derramada

Eu aprendi
que a partir dos meus erros posso acertar
e observando o erro alheio não precisarei mais errar
que inteligência nada mais é que um olhar atento.

Me reinventei
do meu perder me encontrei
e se em algum momento fui subordinado agora sou rei

Estrela, inspiração que irradia calor
pois mesmo sem receber seu merecido valor
continua a nascer todo amanhecer
fazendo seu espetáculo mais bonito
enquanto ninguém está desperto para ver.